quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Helldriver

A princípio, vivemos em uma democracia cultural. Dessa forma, é possível que uma atrocidade como “Helldriver” encontre defensores ou apreciadores. Entretanto, pode-se convir também que tais indivíduos mais gostam da bizarrice pela bizarrice do que propriamente de cinema. O diretor Yoshihiro Nishimura pretende fazer com que a sua obra se imponha pelos excessos de violência, sexo e escatologia, como se fosse uma espécie de manifesto contra o bom gosto, mas o resultado final é apenas estéril – o máximo que as cenas da produção podem causar é algum sorrisinho amarelo constrangido. Os efeitos especiais toscos, o roteiro qualquer nota e a narrativa amadora formam um todo constrangedor que no final das contas até tornam “Helldriver” uma experiência cinematográfica a ser conferida simplesmente pelo fato de ver como as coisas podem dar tão errado. E mesmo a pretensão de entrar numa galeria de obras antológicas na categoria de podreira trash acaba afundando, pois não há nem sombra, por exemplo, daquela atmosfera de fuleiragem ingênua de um Ed Wood.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Rabies

Talvez boa parte do que pode motivar os cinéfilos em geral a assistir a “Rabies” (2011) seja a combinação do gênero com a nacionalidade: uma produção israelense de horror. Descontando o inusitado da origem, entretanto, o filme consegue reservar algumas surpresas. É provável que boa parte dos apreciadores do terror fiquem um tanto ressabiados pelo excesso de psicologização dos personagens e de subtramas de teor dramático, o que não parece condizer muitos às vezes com o estilo meio splater da obra (muita escatologia, sangue, vísceras e afins). Ainda sim, há um interessante equilíbrio entre os momentos de tensão com as sequências de violência explícita. Mesmo tendo por base uma trama centrada na figura de um psicopata sádico (recurso narrativo um tanto manjado), os diretores Aharon Keshales e Navot Papushado souberam criar algumas cenas efetivamente perturbadoras pela sua brutalidade e sordidez, principalmente quando surge a figura do policial corrupto e lascivo que sevicia duas jovens. No saldo geral, “Rabies” está longe de ser um marco ou obra-prima, mas se coloca acima da média do que vem sendo praticado ultimamente no gênero.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Warlock

É inegável que em certos aspectos “Warlock – O Demônio” (1989) envelheceu de forma esquisita como obra do gênero horror. Afinal, algumas sequências que deviam ser assustadoras e tensas acabam parecendo atualmente toscas pelas trucagens bagaceiras na comparação tecnológica com os efeitos especiais contemporâneos. É de se considerar, entretanto, que o filme ainda carrega um certo encanto atemporal pela sua estética, tanto pela ingenuidade das resoluções dramáticas quanto pela caracterização visual de algumas cenas (com um destaque especial para a bem elaborada reconstituição de época do século XVII das tomadas iniciais). A interpretação exagerada e cheia de fleuma de Julian Sands, no papel do personagem-título, também colabora para caracterizar “Warlock” como aquele tipo de produção que está longe de figurar como um clássico imprescindível, mas que ganha uma conotação cult dentro daquela linha de filmes que ficam num recanto obscuro no nosso imaginário cinematográfico.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Attack The Block

A década de 80 foi um período pródigo no gênero das aventuras juvenis. Diretores como Spielberg, Joe Dante e Richard Donner entregaram algumas de suas melhores obras em tal estilo cinematográfico. Curiosamente, 2011 foi um ano em que o gênero em questão e a estética dos cineastas mencionados receberam uma inesperada revitalização. Para começar, com o divertido “Super 8” e depois com o britânico “Attack The Block”. Neste último, entretanto, a recriação vai bem mais longe. O diretor Joe Cornish permeia sua obra com um humor crítico e cínico. Além disso, valoriza o estilo naquilo que ele tem de melhor: cenas de ação coreografadas com clareza e precisão, plenas de uma dimensão épica notável, com destaque para a seqüência final de combate entre o protagonista Moses (John Boyega) e as nojentas criaturas alienígenas, numa impressionante utilização do recurso da câmera lenta. O cineasta trabalha muito bem com uma atmosfera de ambiguidade, em que o tom de aventura escapista convive sem cerimônia com uma visão um tanto crua do cotidiano barra pesada e de classe média baixa dos conjuntos habitacionais londrinos, além do fato de que o estilo clássico de filmar de Cornish não prescinde de algumas modernidades expressivas (a excelente trilha sonora eletrônica é sintomático disso). Cornish tem ainda um faro notável para a direção dos atores – há, no mínimo, uma meia dúzia de caracterizações antológicas em seu elenco. E todas essas qualidades formam um todo poderoso que tornam “Attack The Block” a grande surpresa desta temporada cinematográfica.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Pov

Eu não disse que o negócio está disseminado? “Pov” é mais uma produção do gênero horror a utilizar o recurso da câmera subjetiva. O que a diferencia um pouco é que se trata de uma produção japonesa. Tal origem acaba até implicando numa abordagem diversa. Para começar, percebe-se um tom mais irônico na trama, enfocando algumas obsessões fetichistas tipicamente nipônicas (garotas colegiais bobinhas) e elementos em voga tanto nas sociedades ocidentais como nas orientais (programas televisivos de gosto duvidoso que oscilam entre o “informativo” e o reality show). Além disso, o filme traz bastante daquilo que se está acostumado a ver nas obras de horror recentes do cinema oriental: assombrações, relação entre o sobrenatural e a tecnologia moderna, ausência de finais felizes. Talvez aí esteja uma possível “originalidade” do filme: o encontro das tendências orientais e ocidentais do cinema de horror em uma mesma produção. “Pov” traz algumas soluções criativas em termos visuais e de roteiro, principalmente no seu terço final, em que há um jogo entre o “real” e aquilo que está registrado pela imagem televisiva. Outro ponto positivo é o fato dos personagens que manipulam a câmera serem supostamente profissionais faz com que o filme não tenha aquela impressão de estar tudo tremido ou fora de foco no momento de ação, permitindo, inclusive, que se observe boas trucagens.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Atividade Paranormal 3

Convenhamos que em boa parte destas produções de horror que utilizam o recurso da câmera subjetiva, em que a câmera é “operada” por um dos personagens, tal opção estética e narrativa se revela muito mais como uma desculpa para uma incompetência formal dos diretores. A câmera tremeu ou saiu de foco? Não há nenhuma grande cena em termos visuais? Ora, isso é coerente, afinal o personagem que “filmou” é amador, a intenção é que tudo pareça amador mesmo. Maldita “A Bruxa de Blair”... Ocasionalmente, entretanto, alguma obra a utilizar tal estilo de filmar consegue sair da mesmice e entregar um resultado que consegue cumprir com aquilo que é o mínimo em um filme do gênero terror: o de assustar e causar alguma tensão. “Atividade Paranormal 3” (2011) consegue entrar nesse pequeno e seleto clube. Entre os seus acertos, os diretores Henry Joost e Ariel Schulman encontram um bom pretexto para que a câmera tenha um procedimento mais regular e profissional durante o filme: o personagem que a opera trabalha no registro de festas de casamento. É claro que pode parecer um motivo meio cretino, mas para o filme funciona bem. O cara até se dá o direito a fazer experimentos artesanais para obter uma melhor panorâmica das imagens (afinal, o roteiro do filme se desenrola nos anos 80, época em que as tecnologias das filmadoras estavam bem abaixo das atuais). A trama desse novo capítulo da franquia também é bastante superior às partes anteriores – as cenas com trucagens e sustos são bem mais constantes, o que torna o filme visualmente mais rico, mas sem perder o senso de suspense (que também é maior agora). É claro que algumas ideias do roteiro não são exatamente novas, mas são clichês bem aproveitados. No cômputo geral, até deixa uma certa expectativa para o próximo filme da série (coisa que não ocorreu nas produções anteriores).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Rock Brasília

Quem acompanhou o rock de Brasília quando o mesmo despontou na primeira metade da década de 80 sabe que as principais bandas de tal movimento não se destacaram especialmente pela técnica ou criatividade musical. O que houve naquele momento histórico foi uma conjunção de fatores específicos, indo desde a conjuntura econômico-social-política daquela época (os anos finais da ditadura e o começo da Nova República), passando pelo carisma e talento de Renato Russo e chegando na persistência e garra de alguns integrantes em particular. O grande acerto inicial do documentário “Rock Brasília – Era de Ouro” (2011) está em justamente não se concentrar nos méritos artísticos/musicais das bandas. O diretor Wladimir Carvalho busca um enfoque muito mais abrangente, sabendo evidenciar com precisão o contexto histórico de surgimento destes grupos, relacionando a vida de seus membros à própria evolução cultural da cidade (afinal, boa parte deles era filho de uma classe média alta que era base da vida econômica de Brasília – professores, burocratas, diplomatas). Os depoimentos colhidos são reveladores das variantes particulares que propiciaram a ascensão, apogeu e queda das bandas (e no caso do Capital Inicial, a volta improvável a um apogeu comercial ainda maior!). Carvalho mostra a veia apurada de documentarista ao saber extrair com sabedoria o essencial de cada entrevista, formatando de acordo com a sua proposta artística e conceitual. O fecho do filme é exemplar desta capacidade, em que as palavras e choro inesperados do pai dos irmãos Fê e Flávio Lemos do Capital Inicial sintetizam o espírito errático tanto do grupo em questão quanto do próprio movimento roqueiro oitentista brasiliense.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um Gato em Paris

É interessante observar que a recente tendência dos últimos anos no cinema francês de revalorização do gênero policial se estendeu também para as animações. “Um Gato em Paris” (2010) é prova disso. Apesar de ter como protagonista um gato malandro e carismático, cuja dona é uma adorável garotinha, sua trama gira em torno de ladrões, assassinos, oficiais de polícia, trazendo até um clima de violência e sordidez. A crueza de tal roteiro, entretanto, acaba entrando em choque com o traço leve que predomina no filme, causando um contraste perturbador ao espectador. O filme evoca ainda uma certa atmosfera retrô, trazendo à mente algumas antigas e clássicas obras de Jean-Pierre Melville e Henri-Georges Clouzot. A trilha sonora, recheada de temas no estilo embalinho jazz, realça ainda mais a atmosfera atemporal do filme. No final das contas, “Um Gato em Paris” se configura muito mais como um vigoroso exercício estético do que propriamente entretenimento infantil.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Veneno Está na Mesa

A obra do documentarista Silvio Tendler sempre foi marcada pelo questionamento social e político, às vezes até beirando o panfletário. Na maioria das oportunidades, entretanto, o cineasta teve um elogiável cuidado formal com os seus filmes – o espectador podia não concordar com o teor ideológico do que estava sendo dito, mas reconhecia a dinâmica narrativa de Tendler, sua capacidade de criar tensão e prender a atenção de quem assiste às suas produções. Em “O Veneno Está na Mesa” (2011), essa combinação entre conteúdo e forma não fica bem equacionada. Por mais relevantes que sejam as denúncias levantadas no documentário, o excessivo tom jornalístico torna tudo arrastado e sonolento. O filme se concentra quase que apenas em depoimentos, com o diretor deixando de explorar alguns detalhes de ambientação que poderiam enriquecer a sua proposta (principalmente o aspecto de isolamento dos colonos que se recusam a usar agrotóxicos em sua lavoura – fica apenas levemente esboçado que tal atitude venha de uma possível condição cultural/étnica). É claro que “O Veneno Está na Mesa”, na sua essência, tenha mais preocupações educacionais e informativas do que um comprometimento com o lado “artístico”, mas talvez uma concepção cinematográfica menos dura tornasse a sua mensagem mais universal.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Entre Segredos e Mentiras

Em sua estreia em uma obra ficcional, o diretor Andrew Jarecki deixa claro sua origem documentarista. O seu estilo de filmar em “Entre Segredos e Mentiras” (2010) não traz nada de exageros visuais ou dramáticos e nem maiores arroubos formais. O cineasta prefere uma abordagem mais cerebral e discreta de um caso real que por si já seria escandaloso. Tal opção criativa acaba se revelando adequada ao evidenciar a gradual e verossímil degeneração moral e psíquica do protagonista David Marks (Ryan Gosling), ao mesmo tempo que a trajetória do personagem adquire um caráter simbólico de conto moral a retratar o vazio existencial e a hipocrisia comportamental da sociedade norte-americana na virada entre as décadas de 70 e 80. Por mais que as atitudes de David sejam odiosas e doentias, Jarecki consegue manter uma atmosfera de impessoalidade e destituída de maniqueísmos – a loucura do personagem parece adquirir uma certa coerência com o ambiente em que ele se situa. A estética que domina “Entre Segredos e Mentiras” também colabora para acentuar essa visão seca e objetiva de Jarecki, com uma fotografia de tons pálidos e narrativa que oscila com elegância entre o presente e o passado. De se destacar ainda a sólida composição interpretativa de Gosling no papel principal, marcando David com gestos sutis (mas reveladores) e um olhar assustador pela imprevisibilidade que esconde.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eu Queria Ter a Sua Vida

Costumo dizer que os grandes problemas de um filme não residem em seus clichês temáticos, mas sim na sua abordagem formal. Ou seja, não importa muito a história como se conta, mas a forma com que tal história seja contada. Assim, “Eu Queria Ter a Sua Vida” (2011), mais uma comédia a ter como mote central do roteiro a troca de corpos entre os personagens principais, poderia merecer alguma chance, mesmo com a sua trama para lá de batida. A sua primeira meia hora até chega a ser promissora, principalmente por investir num humor escatológico maior que o habitual no gênero. Com o seu desenrolar, entretanto, a produção se afunda em convencionalismos excessivos, além de uma estrutura capenga de conto moral destituído de quaisquer ousadias. É como se a falta do que dizer em termos temáticos contaminasse a própria narrativa. O meu sentimento ao final da sensação foi o de não querer ver por um bom tempo alguma produção envolvendo a temática em questão...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os Três Mosqueteiros

O desastre artístico que representa esta mais recente versão cinematográfica de “Os Três Mosqueteiros” (2011) não tem relação com uma possível falta de fidelidade com o original literário. Afinal, se as mudanças viessem para tornar a obra mais funcional ou atualizada, não haveria grandes deméritos. O problema do filme é a sua equivocada concepção estética e narrativa – em boa parte da produção, temos a impressão de estarmos vendo um grande e genérico vídeo game (não à toa, o diretor Paul W. S. Anderson foi o responsável pela franquia para os cinemas da versão dos jogos “Resident Evil”). Tudo é basicamente agitado, espalhafatoso e barulhento, mas o efeito sobre nossa percepção sensorial é estéril. Algumas ideias envolvendo uma modernização tecnológica e uma abordagem mais cínica e violenta para situações e personagens são interessantes em termos teóricos, mas têm resultados práticos rasos e dramaticamente nulos. No final das contas, o que salva um pouco “Os Três Mosqueteiros” são algumas boas escolhas de elenco, mas que acabam se perdendo no oceano de incompetência que domina a obra.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Não Tenha Medo do Escuro

Nos últimos anos, os filmes mais comentados e cultuados no gênero horror têm se concentrado no já gasto estilo câmera subjetiva com enfoque pseudo-documental. Ou seja, aquelas produções em que se vê a história se desenrolar pela ótica de uma câmera que é conduzida por um dos personagens. Eventualmente, até se produziu algo de realmente relevante nesta forma de conduzir a trama, mas no mais das vezes tal procedimento serviu apenas para mascarar a pasmaceira criativa dos diretores. “Não Tenha Medo do Escuro” (2010) prova que a boa e velha maneira clássica de filmar uma obra de terror ainda consegue gerar os devidos calafrios de tensão sem precisar apelar para invencionices estéreis. O diretor Troy Nixey não se furta de usar alguns dos mais básicos clichês do gênero: casa mal assombrada, um segredo do passado mal escondido, uma família em crise (que com o conflito com o mal é obrigada a se unir), uma criança que se defronta com o sobrenatural (mas a qual ninguém dá crédito). Nixey embala tudo isso com convicção e estilo, abusando de uma estética gótica que beira o barroco, além de saber criar com precisão uma atmosfera de tensão angustiante. Outro acerto do filme está no design das criaturas que atormentam a pequena Sally (Bailee Madison): um misto certeiro entre o infantil e o devidamente repulsivo. Não é a toa, aliás, que o nome de Guillermo Del Toro esteja nos créditos de produção e roteiro – boa parte dos méritos de “Não Tenha Medo do Escuro” remetem ao melhores de produções anteriores concebidas pelo diretor mexicano.

domingo, 27 de novembro de 2011

Amizade Colorida

O gênero comédia romântica costuma ser uma espécie de camisa de força criativa. É claro que de vez em quando alguém consegue ousar ou propor algo de novo. Mas na maioria das vezes, por melhores que sejam as intenções iniciais dos respectivos diretores, as obras que trafegam por tal linha acabam caindo na mesmice. “Amizade Colorida” (2011) é um exemplo claro disso. A produção se propõe na sua primeira metade a ironizar os clichês básicos do gênero, principalmente ao contextualizar tais lugares comuns diante das particularidades comportamentais ocidentais da atualidade, o que até acaba rendendo momentos efetivamente engraçados. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, o filme acaba enveredando por um beco sem saída, diante da impossibilidade de levar esta visão mais ácida até as últimas conseqüências. Assim, acaba se rendendo a todas as previsibilidades possíveis e a uma concepção estética pouco inspirada, aliado ao fato dos personagens ficarem piorarem progressivamente na sua caracterização – afinal, por que a protagonista Jamie (Mila Kunis), gatinha e simpática, é tão traumatizada com relacionamentos? E as coisas degringolam de vez quando lembramos que recentemente foi lançada a insossa “Sexo Sem Compromisso” (2011), de roteiro praticamente igual.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Trabalhar Cansa

Dentro de “Trabalhar Cansa” (2011) há dois filmes que tentam se relacionar. Um é um drama social, de cunho bastante irônico, que traz uma visão crítica dos princípios e mazelas que marcam a atual classe média brasileira. O outro filme é um de horror, que a princípio traz algo de psicológico, mas que com o desenvolver a narrativa se aproxima cada vez mais em se manifestar fisicamente. É claro que a intenção dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra é estabelecer uma aproximação simbólica entre os dois gêneros distintos que compõe a sua obra. De certa forma, é algo que Roman Polanski já havia feito com maestria em obras como “Repulsa ao Sexo” (1965) ou “O Inquilino” (1976). O problema de “Trabalhar Cansa” é que a junção de duas linhas de tramas raramente consegue soar orgânica, principalmente com a parte do sobrenatural, que acaba soando como uma tentativa meio envergonhada de enveredar para o terror. Mesmo assim, a produção tem os seus méritos, principalmente nas sequências que enfatizam o absurdo da condição humana que aflora em situações ditas “normais” – como os momentos finais do filme em que profissionais liberais a procura de um emprego deixam vazar sua “porção animal”.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Onda Verde


Dentro do gênero “documentários-denúcia”, “A Onda Verde” (2010) acaba se destacando pelo uso criativo de alguns recursos formais e dramáticos. O filme narra o obscuro episódio das fraudes das eleições do Irã em 2009 que gerou revolta em parte da população do país e a conseqüente repressão por parte da polícia do governo e milicianos simpatizantes. A produção se utiliza de depoimentos de alguns dos principais envolvidos e de animações que reproduzem alguns dos episódios comentados pelo mesmo. O traço dos desenhos animados oscila entre o leve e o realista, sem nunca atenuar, entretanto, a brutalidade e crueza das histórias de violência e humilhação contadas. O diretor Ali Samadi Ahadi demonstra segurança na condução da narrativa, não permitindo que a mesma caia no sentimentalismo excessivo. É claro que o fator emocional permeia o filme, mas o mesmo irrompe em determinadas sequencias de forma natural, coerente e sutil.

domingo, 20 de novembro de 2011

Sangue no Celular

Há obras cujo maior foco está na sua proposta temática do que em seus eventuais méritos artísticos ou formais. Esse seria o caso do documentário dinamarquês “Sangue no Celular” (2010), cujo objetivo principal é denunciar o uso oficial de minerais provindos de forma clandestina da África para a fabricação de telefones celulares. O diretor Frank Piasecki Poulsen expõe a hipocrisia e amoralidade de grandes corporações em tentar justificar aquilo que é injustificável. Apesar de suas intenções sócio-políticas, entretanto, Poulsen consegue elaborar um filme que apresenta uma narrativa envolvente, carregada de tensão e até mesmo aventura, afinal, além dos previsíveis depoimentos em escritórios e outros lugares mais confortáveis, ele não se furta em se embrenhar no meio de minas precárias e repletas de guerrilheiros armados nas selvas africanas, visando mostrar o cotidiano dos nativos praticamente escravizados que trabalham na extração. O constante risco de desabamentos ou de simplesmente levar um tiro transformam tais momentos a produção num verdadeiro thriller de suspense.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um Filme Inacabado

Por mais que achamos que nada mais pode nos surpreender em termos de filmes sobre a 2ª Guerra Mundial, sempre acaba aparecendo algo que tem a capacidade de apresentar algo de novo sobre o tema. Esse é justamente o caso de “Um Filme Inacabado” (2009). Este documentário tem como mote a descoberta de um inédito registro audiovisual da rotina dos judeus no Gueto de Varsóvia. A partir disso, o diretor Yael Heronski estabelece uma narrativa que se divide na amostragem de tal registro e em um processo investigativo da origem do mesmo, buscando motivos e fatos que levaram a realização do mesmo. O resultado é impressionante ao evidenciar imagens duras e tristes do cotidiano de privações e humilhações dos judeus no período da Polônia ocupada pelos nazistas. Esta percepção fica ainda mais acentuada quando alguns dos sobreviventes que moravam no local naquela época assistem e comentam as cenas em questão – suas reações e expressões faciais sintetizam com brutal precisão o horror do Holocausto. No decorrer da narrativa, descobre-se que o registro tinha a função de servir como uma espécie de material de propaganda para mostrar que as coisas não estavam tão degradantes assim para os judeus naquele gueto. A realidade, porém, falou mais alto – não havia como esconder os cadáveres pelas ruas, a fome escancarada nos rostos das pessoas, a crueldade tirânica dos nazistas na sua vigilância. Tanto que o projeto de “marketing” foi cancelado e o filme acabou escondido por vários anos em um depósito de arquivos na Alemanha até ser descoberto há poucos anos. No final das contas, “Um Filme Inacabado” acaba reforçando o papel contraditório do cinema tanto como forma de ilusão quanto de evidência da verdade factual.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mamute

Em um primeiro momento, “Mamute” (2010) é uma obra que se apresenta com um registro visual cru, quase de tinturas documentais, ao focalizar a rotina de Serge (Gerard Depardieu), açougueiro recém aposentado que se vê envolvido em questões burocráticas e que o obrigam a fazer uma viagem para lugares onde viveu sua infância e juventude. É claro que tal viagem acaba ganhando contornos de uma jornada de reminiscências e auto-descoberta para o tipo bruto. Ocorre que à medida que esse processo de reflexão se sucede, o filme vai enveredando para pequenos toques de cinema fantástico, indo de figuras excêntricas até aparições fantasmagóricas de um antigo amor do protagonista. A força do filme está em justamente contrapor dois universos distintos, o real e o delirante, e fazer com que essa relação soe natural, quase como se configurasse na tela um “cinema verdade onírico”. No mais, “Mamute” serve também como alegoria da própria persona de Depardieu, cuja figura destoante e desajeitada possui uma conotação que oscila entre o anacrônico e o desafiador.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Homem Mais Perigoso da América

Dentro do tradicional modelo de documentário histórico, pode-se dizer que “O Homem Mais Perigoso da América” (2010) não apresenta maiores novidades para o gênero. Seu grande mérito está em conseguir explorar com precisão as possibilidades temáticas que o assunto do filme toma como mote. Focalizando a trajetória de Daniel Ellsberg, analista de guerra que trabalhava para a CIA e que trouxe à tona para o grande público os podres que envolviam a participação dos Estados Unidos no conflito do Vietnã, a produção obtém uma extraordinária dinâmica narrativa se valendo basicamente de registros de arquivos e depoimentos atuais. Os diretores Judith Ehrlich e Rick Goldsmith conseguem uma ambientação diferenciada para o seu documentário ao transformarem o mesmo num thriller tenso, transcendendo o simples didatismo da exposição de fatos. No cômputo geral, “O Homem Mais Perigoso da América” consegue se firmar com dignidade no panteão de outras obras de destaque do cinema verdade que abordaram a questão da Guerra do Vietnã (“Corações e Mentes”, “Sob a Névoa da Guerra”).

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Potiche



Se tem uma coisa que não dá para acusar o cineasta francês François Ozon é dele não manter uma coerência autoral em sua obra. Em “Potiche – Esposa Troféu” (2010), o diretor continua a fazer os seus experimentos de desconstrução de gêneros cinematográficos. O filme em questão apresenta uma estrutura de comédia de costumes meio bobinha, quase também nos moldes de seriados televisivos na linha “I Love Lucy”, mas situada dentro de um contexto histórico mais complexo – os turbulentos anos 70. Assim, questões espinhosas como a emancipação feminina, a liberação sexual, os conflitos de ideologia e a luta de classes passam por um viés cômico, que beira o frívolo, repletos de seqüências açucaradas, cenas de humor pastelão, revelações novelescas e exagerados figurinos de épocas. Esse choque de contradição entre os aspectos formais e temáticos de “Potiche” reflete o próprio gosto de Ozon em dessacralizar algo que, a princípio, deveria ser levado a sério. Nesse sentido, a participação de monstros sagrados do cinema francês como Catherine Deneuve e Gerard Depardieu não é gratuita – de certa forma, há uma sensação de estranhamento em ver tais artistas em meio a diálogos que chegam perto do pueril e de cenas de comédia amalucada.

A escolha de Deneuve para o papel de protagonista também deixa claro uma influência importante de Ozon em “Potiche” – o esquisito musical “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1964), no qual Deneuve também interpretava a personagem principal. Em tal obra, o diretor Jacques Demy usava uma estrutura de filme de diálogos totalmente cantados, recurso típicos de fantasiosas produções de Hollywood, para embalar uma realista e dura história de amor não realizado, em um contraste de abordagem que se revela em sutil sintonia com a recente produção de Ozon. E para escancarar ainda mais tal referência, boa parte da ação de “Potiche” se desenrola em uma fábrica de, olha só, guarda-chuvas!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Estrada Real da Cachaça



Há duas cinebiografias dentro de “Estrada Real da Cachaça” (2008). Uma da própria bebida que está no título no filme, e outra do Brasil. Ou pelo menos de parte de sua história. Mas não se pense que o documentário tenha um fim meramente didático, pois tal narrativa se apresenta muito mais como uma espécie de viagem sensorial pela alma do brasileiro. O diretor Pedro Urano abdica de uma trama detalhada e linear para recriar a trajetória tanto da aguardente quanto do nosso país. São jogados na telas elementos diversos, simulando uma espécie de jogo aleatório, mas que aos poucos compõem um mosaico metafórico e perturbador de alguns dos mais remotos quintões nativos. A Estrada Real alude aos caminhos explorados para a extração e comercialização do ouro na era colonial, marcando o processo de civilização do país. Nos seus calcanhares, vem a difusão da cultura da cachaça e a sua consequente associação à constituição do imaginário coletivo do brasileiro. Para construir essa complexa associação de simbolismos, Urano utiliza depoimentos de populares (às vezes com uma língua portuguesa e pronúncia tão particulares que exige legendas), cantorias tradicionais, longas tomadas contemplativas de pessoas e paisagens, animações envolvendo mapas. A intenção não é tanto fazer o espectador “aprender” com os fatos, mas que o mesmo veja um fragmento de um estado de espírito, de um sentimento um tanto difuso, mas também verdadeiro.

Cabe ressaltar que a abordagem de Urano em “Estrada Real da Cachaça” não é exatamente de exaltação da bebida ou ufanista em relação ao Brasil. Há vários momentos no documentário em que a cachaça possui um caráter festivo e rende comicidade para a obra, mas Urano não se furta de mostrar sequências que evidenciam algo de degradante e melancólico na conseqüência que o vício na bebida pode causar em seus adeptos. Tal contradição se estende na visão dúbia que se oferece do nosso país: tão cheio de vida, mas também tão repleto de exploração e injustiças sociais – nesse ponto, a produção parece estabelecer um possível questionamento: “Não seria a cachaça usada também como um anestesiante para esse povo tão oprimido?”. No final das contas, essa dicotomia de atração e repulsa que permeia “Estrada Real da Cachaça” mais oferece perguntas do que respostas. E isso ainda mais acentua a fascinante aura de mistério que envolve o filme.

domingo, 16 de outubro de 2011

Manôushe



Talvez boa parte da interesse que vem de “Manôushe” (1992) seja o seu contexto histórico. Afinal, não é muito freqüente assistir no cinema nacional a uma obra que traga uma junção tão insólita de elementos diversos e estranhos. Situada em uma época algo imprecisa, a trama do filme traz cenas de danças flamencas, tipos grotescos, direção de arte estilizada que recria um ambiente de fábulas (obviamente, “A Lenda” de Ridley Scott parece ser uma influência que permeia toda a produção), diálogos com um dialeto totalmente inventado. A encenação de referências pouco ortodoxas como essas parece emular influências de Fellini, trazendo uma narrativa simbólica e delirante que pode assustar aqueles que estão habituados com a linguagem naturalista de boa parte da filmografia nacional recente. É certo que em alguns momentos o excesso de esquisitices do filme acaba cansando pela repetição, além do diretor Luiz Begazo não ter a mesma fluência para lidar com o picaresco fantástico que Fellini tinha. Mesmo assim, “Manôushe” acaba sendo uma experiência curiosa pela atmosfera atemporal e onírica que envolve a história.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quebrando o Tabu




Tentar escrever sobre “Quebrando o Tabu” (2011) sob um prima exclusivamente cinematográfico pode ser um ato incompleto, no sentido de que a intenção do filme é muito mais evidenciar o seu tema do que ressaltar suas possíveis qualidades formais como produto audiovisual. O diretor Fernando Grostein Andrade até apresenta algumas soluções narrativas atraentes, principalmente na seqüência de abertura, em que utiliza recursos de animação para ilustrar a história do fascínio da humanidade pelas drogas. Além disso, há momentos em que ele consegue capturar com crueza depoimentos bastante contundentes sobre o assunto, principalmente quando o médico Dráuzio Varella entra em cena e dispara sua perplexidade e raiva contra hipocrisia que ronda a questão da descriminalização do uso de determinadas substâncias ilícitas. No geral, entretanto, predomina no documentário um certo tom cerimonioso, quase de um filme institucional sobre o tema. A trilha sonora melosa e inconveniente (sério, seria muito melhor em algumas seqüências que não tivesse música alguma!) acentua ainda mais essa impressão de obra-propaganda. Por outro lado, é de se convir que a abordagem sobre a matéria é até bastante ousada e pouco preconceituosa na forma franca com que lida com pontos tão polêmicos, ainda mais que a mídia geralmente apresente uma tendência conservadora quando trata da questão. Assim, se “Quebrando o Tabu” pouco impressiona como cinema, acaba se redimindo pela lucidez de seu aspecto sociológico.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Schock



Dentro da tradicional combinação do subgênero de filmes de horror de casas mal assombradas com tramas cheias de segredos, “Schock” (1977) acaba surpreendendo justamente naquilo que tem de mais particular – o detalhismo visual e narrativo de Mario Bava. O diretor aproveita cada cena para inserir diversos elementos imagéticos insólitos, explorando de forma bastante imaginativa um universo que se divide entre o delírio e o puro terror sobrenatural. Isso se reflete também na forma barroca com que Bava trabalha os contrastes visuais entre claro e escuro, além de trucagens impactantes, como estiletes que flutuam e braços que saem do chão e das paredes. Em tal concepção cinematográfica, a técnica não é um ente separado do lado temático – a primeira ajuda a dar sentido para a trama do filme, que vai se revelando cada vez mais sórdida e obscura, envolvendo seus personagens num vórtice de culpa e loucura. E em termos temáticos, “Schock” se revela até mais ousado do que aquilo que costumamos ver recentemente na linha terror/suspense – Bava torna a ambientação da obra cada vez mais opressiva e angustiante, não vislumbrando uma dicotomia tão clara entre o bem e o mal e também nem uma solução fácil de final feliz para os seus personagens.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Carros 2



Assim como boa parte do melhor que se produz atualmente em termos de animação, “Carros 2” (2011) traz uma gama de referências visuais e temática tão grande que de certa forma acaba sendo até mais atrativo para os adultos do que para as crianças. A trama evoca as conspirações rocambolescas típicas dos filmes iniciais da franquia de 007 com Sean Conery, o que dá para a animação um sabor nostálgico. O tom de parábola moral da primeira parte se mantém, mas acrescido desse pendor para a aventura mais elaborada, cheia de reviravoltas e momentos de tensão, ainda que temperada pelo viés cômico. Graficamente, a obra de Brad Lewis é de encher os olhos. A recriação estilizada de Tóquio e Londres combina com precisão realismo e fantasia, além de um admirável senso de ironia ao tirar um sarro de leve das afetações características de cada uma das nações em que a trama da produção se desenrola. E é claro que as citações e referências de “Carros 2” seriam meros truques formais sem maiores consequências se não viessem acompanhadas de uma narrativa que dosa habilmente ação alucinante e momentos estilo “lições edificantes de vida”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Minha Terra, África



Em termos temáticos e filosóficos, “Minha Terra, África” (2009) parece emular alguns conceitos já trabalhados em filmes como “Apocalypse Now” (1979): o temor e a inabilidade do homem branco ocidental em lidar com o desconhecido e misterioso representado pelos povos ditos “selvagens” e pelos lugares que lhes são estranhos. No filme de Claire Denis, há a dissolução de velhos preceitos típicos dos que são “desenvolvidos” – a obsessão da francesa Maria Vial (Isabelle Huppert) em fazer a colheita de café da sua fazenda em pleno coração da África e no meio de uma sangrenta guerra civil poderia parecer heróica, mas na realidade apenas reflete a alienação, a insensibilidade emocional e a preocupação com a manutenção de um status econômico por parte da protagonista. A narrativa, que alterna sutilmente passado e presente, estabelece um lento e inexorável processo de destruição dos desejos da personagem, assim como relaciona de forma intrínseca os lados social e intimista da trama, como se quisesse jogar na cara de Maria a impossibilidade de seu alheamento da realidade que a cerca – o que acaba se consumando na tragédia familiar que encerra o filme. No mais, Denis estabelece um estilo de filmar que oscila entre o seco e o poético, como se contaminada por uma certa sensação de lassidão melancólica que provém de um país que se despedaça aos poucos, sentimento esse que a música etérea e sombria dos Tindersticks, habituais colaboradores da cineasta, sublinha em sintonia marcante.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Mar Mais Silencioso Daquele Verão


Os admiradores mais desavisados de Takeshi Kitano, acostumados com a violência fria e os banhos de sangue de obras magníficas como “Sonatine” (1993) e “Zatoichi” (2003), talvez estranhem a aparente inocência da comédia dramática “O Mar Mais Silencioso Daquele Verão” (1992), um dos filmes menos conhecidos de Kitano. Na verdade, tudo aquilo que caracteriza o universo desse mestre contemporâneo do cinema japonês está lá: o ritmo contemplativo, a amargura disfarçada de pequenas tolices, as emoções contidas dos personagens. A história ilusoriamente banal do surdo-mudo que quer ser surfista flui com naturalidade, às vezes até num tom quase prosaico, oscilando de forma insólita entre um humor quase constrangido e o drama rigoroso e acaba por desembocar em um final trágico que desconcerta pelo tom casual. No final das contas, é como se Kitano desprezasse as convenções dos gêneros cinematográficos (Isso é drama? Ou é comédia) e criasse uma categorização própria, ou seja, a sua concepção cinematográfica única. E que em obras posteriores ele radicalizou ainda mais.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Antes Só Do Que Mal Casado




Confesso que eu já considerava os irmãos Farrelly cartas fora do baralho. Seus últimos filmes vinham progressivamente se tornando comédias amenas, quase doces, sendo que chegaram ao fundo do poço com o medíocre e insosso “Amor em Jogo” (2005), onde conseguiram o milagre de tirar toda a graça da ironia amarga do livro original de Nick Hornby. Pois em “Antes Só Do Que Mal Casado” (2007) os caras conseguem se recuperar com louvor, retomando com sucesso o ritmo alucinado e a comédia física grotesca típicos do melhor de sua obra.

Mesmo não atingindo o grau de obra-prima de filmes como “Debi e Lóide” (1994) e “Todos Querem Ficar Com Mary” (1998), “Antes Só Do Que Mal Casado” tem vários momentos memoráveis de humor insano e sem concessões, além de uma galeria consistente de tipos inesquecíveis como o melhor amigo sem noção do protagonista Eddie Cantrow (Ben Stiller) e o primo mala e violento da amada de Eddie.

E é claro que não dá para esquecer que por trás da sua estrutura típica de comédia de erros e de algumas excelentes seqüências de puro humor pastelão e escrachado, “Antes Só Do Que Mal Casado” mostra também uma visão ácida sobre o comportamento humano e as relações amorosas. As enrascadas sentimentais em que Eddie se mete revelam uma concepção crua e pouco romântica sobre o casamento e os interesses que motivam homem e mulher a se unirem, dando o filme até mesmo um certo caráter questionador e perturbador.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Presságio



É claro que Lamberto Bava não tem a mesma classe estética do seu pai, o mestre Mario Bava. Mesmo assim, não dá para negar que ele tem competência razoável no domínio da narrativa cinematográfica. Mesmo não estando entre os pontos altos de sua cinematografia, “Presságio” (2010), produção dirigida originalmente para a televisão, consegue apresentar algumas das boas qualidades do “Bavinha”. A trama envolvendo elementos de policial e sobrenatural não apresenta grandes novidades no estilo, mas o cineasta insere elementos visuais interessantes, principalmente nas imagens oníricas de uma garota com capa de chuva fugindo de uma figura de preto, que parecem evocar cenas do clássico “Inverno de Sangue em Veneza” (1973). Bava também apresenta uma boa mão na direção de atores e composição cênica de algumas seqüências, dando ao filme um certo sabor nostálgico que lembram alguns filmes setentistas italianos no gênero giallo.

domingo, 2 de outubro de 2011

Metadona - Uma Maneira Americana de Trafica

Alguns posts atrás eu comentei sobre “Quebrando o Tabu” (2011), produção brasileira que discutia a questão da descriminalização das drogas e que tinha como principal problema o fato de ter uma concepção formal que caía muito para uma espécie de obra institucional sobre o tema. Pois “Metadona – Uma Maneira Americana de Traficar” (1974) tem uma pretensão aparentemente de ser um filme de caráter educativo sobre o tema do vício, mas o seu tratamento estético acaba fazendo com que transcenda tal finalidade. Pode-se discordar da visão dos autores sobre a questão da droga, mas o documentário acaba se grudando no nosso imaginário cinematográfico pela força de algumas de suas cenas. Tematicamente contra o uso oficial pelo governo da droga que o intitula, o filme possui uma formatação bem sistemática – escolhe dois grupos de apoio a usuários de heroína, um que utiliza a metadona no tratamento e outro que adota um método baseado em discussões de grupo, e os foca em dois momentos distintos com diferenças de poucos anos. Na primeira parte, a fotografia é em preto em branco, na segunda a mesma é colorida. Tal concepção nos registros não é gratuita: se nas tomadas mais antigas o preto e branco sombrio acentua um tom de angústia e incerteza para os viciados, nas mais recentes o colorido dá uma perspectiva de esperança para aqueles que conseguiram evoluir no tratamento. Se a dureza das situações focadas e de alguns depoimentos choca pela crueza, há momentos em que emerge de forma repentina uma inesperada dose de lirismo, principalmente quando a narrativa se concentra nas reuniões do segundo grupo, aquele que não usa metadona, em que um dos “remédios” adotados é o canto coletivo de clássicos do soul (afinal, os anos 70 foi um período de excelente safra de músicas no estilo). O conjunto de tais escolhas formais e temáticas dos diretores Jim Klein e Julia Reichert é que dá a “Metadona – Uma Maneira de Traficar” uma aura de clássico no gênero documental, ainda que um tanto obscuro.