terça-feira, 29 de novembro de 2011

Não Tenha Medo do Escuro

Nos últimos anos, os filmes mais comentados e cultuados no gênero horror têm se concentrado no já gasto estilo câmera subjetiva com enfoque pseudo-documental. Ou seja, aquelas produções em que se vê a história se desenrolar pela ótica de uma câmera que é conduzida por um dos personagens. Eventualmente, até se produziu algo de realmente relevante nesta forma de conduzir a trama, mas no mais das vezes tal procedimento serviu apenas para mascarar a pasmaceira criativa dos diretores. “Não Tenha Medo do Escuro” (2010) prova que a boa e velha maneira clássica de filmar uma obra de terror ainda consegue gerar os devidos calafrios de tensão sem precisar apelar para invencionices estéreis. O diretor Troy Nixey não se furta de usar alguns dos mais básicos clichês do gênero: casa mal assombrada, um segredo do passado mal escondido, uma família em crise (que com o conflito com o mal é obrigada a se unir), uma criança que se defronta com o sobrenatural (mas a qual ninguém dá crédito). Nixey embala tudo isso com convicção e estilo, abusando de uma estética gótica que beira o barroco, além de saber criar com precisão uma atmosfera de tensão angustiante. Outro acerto do filme está no design das criaturas que atormentam a pequena Sally (Bailee Madison): um misto certeiro entre o infantil e o devidamente repulsivo. Não é a toa, aliás, que o nome de Guillermo Del Toro esteja nos créditos de produção e roteiro – boa parte dos méritos de “Não Tenha Medo do Escuro” remetem ao melhores de produções anteriores concebidas pelo diretor mexicano.

domingo, 27 de novembro de 2011

Amizade Colorida

O gênero comédia romântica costuma ser uma espécie de camisa de força criativa. É claro que de vez em quando alguém consegue ousar ou propor algo de novo. Mas na maioria das vezes, por melhores que sejam as intenções iniciais dos respectivos diretores, as obras que trafegam por tal linha acabam caindo na mesmice. “Amizade Colorida” (2011) é um exemplo claro disso. A produção se propõe na sua primeira metade a ironizar os clichês básicos do gênero, principalmente ao contextualizar tais lugares comuns diante das particularidades comportamentais ocidentais da atualidade, o que até acaba rendendo momentos efetivamente engraçados. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, o filme acaba enveredando por um beco sem saída, diante da impossibilidade de levar esta visão mais ácida até as últimas conseqüências. Assim, acaba se rendendo a todas as previsibilidades possíveis e a uma concepção estética pouco inspirada, aliado ao fato dos personagens ficarem piorarem progressivamente na sua caracterização – afinal, por que a protagonista Jamie (Mila Kunis), gatinha e simpática, é tão traumatizada com relacionamentos? E as coisas degringolam de vez quando lembramos que recentemente foi lançada a insossa “Sexo Sem Compromisso” (2011), de roteiro praticamente igual.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Trabalhar Cansa

Dentro de “Trabalhar Cansa” (2011) há dois filmes que tentam se relacionar. Um é um drama social, de cunho bastante irônico, que traz uma visão crítica dos princípios e mazelas que marcam a atual classe média brasileira. O outro filme é um de horror, que a princípio traz algo de psicológico, mas que com o desenvolver a narrativa se aproxima cada vez mais em se manifestar fisicamente. É claro que a intenção dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra é estabelecer uma aproximação simbólica entre os dois gêneros distintos que compõe a sua obra. De certa forma, é algo que Roman Polanski já havia feito com maestria em obras como “Repulsa ao Sexo” (1965) ou “O Inquilino” (1976). O problema de “Trabalhar Cansa” é que a junção de duas linhas de tramas raramente consegue soar orgânica, principalmente com a parte do sobrenatural, que acaba soando como uma tentativa meio envergonhada de enveredar para o terror. Mesmo assim, a produção tem os seus méritos, principalmente nas sequências que enfatizam o absurdo da condição humana que aflora em situações ditas “normais” – como os momentos finais do filme em que profissionais liberais a procura de um emprego deixam vazar sua “porção animal”.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Onda Verde


Dentro do gênero “documentários-denúcia”, “A Onda Verde” (2010) acaba se destacando pelo uso criativo de alguns recursos formais e dramáticos. O filme narra o obscuro episódio das fraudes das eleições do Irã em 2009 que gerou revolta em parte da população do país e a conseqüente repressão por parte da polícia do governo e milicianos simpatizantes. A produção se utiliza de depoimentos de alguns dos principais envolvidos e de animações que reproduzem alguns dos episódios comentados pelo mesmo. O traço dos desenhos animados oscila entre o leve e o realista, sem nunca atenuar, entretanto, a brutalidade e crueza das histórias de violência e humilhação contadas. O diretor Ali Samadi Ahadi demonstra segurança na condução da narrativa, não permitindo que a mesma caia no sentimentalismo excessivo. É claro que o fator emocional permeia o filme, mas o mesmo irrompe em determinadas sequencias de forma natural, coerente e sutil.

domingo, 20 de novembro de 2011

Sangue no Celular

Há obras cujo maior foco está na sua proposta temática do que em seus eventuais méritos artísticos ou formais. Esse seria o caso do documentário dinamarquês “Sangue no Celular” (2010), cujo objetivo principal é denunciar o uso oficial de minerais provindos de forma clandestina da África para a fabricação de telefones celulares. O diretor Frank Piasecki Poulsen expõe a hipocrisia e amoralidade de grandes corporações em tentar justificar aquilo que é injustificável. Apesar de suas intenções sócio-políticas, entretanto, Poulsen consegue elaborar um filme que apresenta uma narrativa envolvente, carregada de tensão e até mesmo aventura, afinal, além dos previsíveis depoimentos em escritórios e outros lugares mais confortáveis, ele não se furta em se embrenhar no meio de minas precárias e repletas de guerrilheiros armados nas selvas africanas, visando mostrar o cotidiano dos nativos praticamente escravizados que trabalham na extração. O constante risco de desabamentos ou de simplesmente levar um tiro transformam tais momentos a produção num verdadeiro thriller de suspense.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um Filme Inacabado

Por mais que achamos que nada mais pode nos surpreender em termos de filmes sobre a 2ª Guerra Mundial, sempre acaba aparecendo algo que tem a capacidade de apresentar algo de novo sobre o tema. Esse é justamente o caso de “Um Filme Inacabado” (2009). Este documentário tem como mote a descoberta de um inédito registro audiovisual da rotina dos judeus no Gueto de Varsóvia. A partir disso, o diretor Yael Heronski estabelece uma narrativa que se divide na amostragem de tal registro e em um processo investigativo da origem do mesmo, buscando motivos e fatos que levaram a realização do mesmo. O resultado é impressionante ao evidenciar imagens duras e tristes do cotidiano de privações e humilhações dos judeus no período da Polônia ocupada pelos nazistas. Esta percepção fica ainda mais acentuada quando alguns dos sobreviventes que moravam no local naquela época assistem e comentam as cenas em questão – suas reações e expressões faciais sintetizam com brutal precisão o horror do Holocausto. No decorrer da narrativa, descobre-se que o registro tinha a função de servir como uma espécie de material de propaganda para mostrar que as coisas não estavam tão degradantes assim para os judeus naquele gueto. A realidade, porém, falou mais alto – não havia como esconder os cadáveres pelas ruas, a fome escancarada nos rostos das pessoas, a crueldade tirânica dos nazistas na sua vigilância. Tanto que o projeto de “marketing” foi cancelado e o filme acabou escondido por vários anos em um depósito de arquivos na Alemanha até ser descoberto há poucos anos. No final das contas, “Um Filme Inacabado” acaba reforçando o papel contraditório do cinema tanto como forma de ilusão quanto de evidência da verdade factual.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mamute

Em um primeiro momento, “Mamute” (2010) é uma obra que se apresenta com um registro visual cru, quase de tinturas documentais, ao focalizar a rotina de Serge (Gerard Depardieu), açougueiro recém aposentado que se vê envolvido em questões burocráticas e que o obrigam a fazer uma viagem para lugares onde viveu sua infância e juventude. É claro que tal viagem acaba ganhando contornos de uma jornada de reminiscências e auto-descoberta para o tipo bruto. Ocorre que à medida que esse processo de reflexão se sucede, o filme vai enveredando para pequenos toques de cinema fantástico, indo de figuras excêntricas até aparições fantasmagóricas de um antigo amor do protagonista. A força do filme está em justamente contrapor dois universos distintos, o real e o delirante, e fazer com que essa relação soe natural, quase como se configurasse na tela um “cinema verdade onírico”. No mais, “Mamute” serve também como alegoria da própria persona de Depardieu, cuja figura destoante e desajeitada possui uma conotação que oscila entre o anacrônico e o desafiador.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Homem Mais Perigoso da América

Dentro do tradicional modelo de documentário histórico, pode-se dizer que “O Homem Mais Perigoso da América” (2010) não apresenta maiores novidades para o gênero. Seu grande mérito está em conseguir explorar com precisão as possibilidades temáticas que o assunto do filme toma como mote. Focalizando a trajetória de Daniel Ellsberg, analista de guerra que trabalhava para a CIA e que trouxe à tona para o grande público os podres que envolviam a participação dos Estados Unidos no conflito do Vietnã, a produção obtém uma extraordinária dinâmica narrativa se valendo basicamente de registros de arquivos e depoimentos atuais. Os diretores Judith Ehrlich e Rick Goldsmith conseguem uma ambientação diferenciada para o seu documentário ao transformarem o mesmo num thriller tenso, transcendendo o simples didatismo da exposição de fatos. No cômputo geral, “O Homem Mais Perigoso da América” consegue se firmar com dignidade no panteão de outras obras de destaque do cinema verdade que abordaram a questão da Guerra do Vietnã (“Corações e Mentes”, “Sob a Névoa da Guerra”).