A princípio, vivemos em uma democracia cultural. Dessa forma, é possível que uma atrocidade como “Helldriver” encontre defensores ou apreciadores. Entretanto, pode-se convir também que tais indivíduos mais gostam da bizarrice pela bizarrice do que propriamente de cinema. O diretor Yoshihiro Nishimura pretende fazer com que a sua obra se imponha pelos excessos de violência, sexo e escatologia, como se fosse uma espécie de manifesto contra o bom gosto, mas o resultado final é apenas estéril – o máximo que as cenas da produção podem causar é algum sorrisinho amarelo constrangido. Os efeitos especiais toscos, o roteiro qualquer nota e a narrativa amadora formam um todo constrangedor que no final das contas até tornam “Helldriver” uma experiência cinematográfica a ser conferida simplesmente pelo fato de ver como as coisas podem dar tão errado. E mesmo a pretensão de entrar numa galeria de obras antológicas na categoria de podreira trash acaba afundando, pois não há nem sombra, por exemplo, daquela atmosfera de fuleiragem ingênua de um Ed Wood.quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Helldriver
A princípio, vivemos em uma democracia cultural. Dessa forma, é possível que uma atrocidade como “Helldriver” encontre defensores ou apreciadores. Entretanto, pode-se convir também que tais indivíduos mais gostam da bizarrice pela bizarrice do que propriamente de cinema. O diretor Yoshihiro Nishimura pretende fazer com que a sua obra se imponha pelos excessos de violência, sexo e escatologia, como se fosse uma espécie de manifesto contra o bom gosto, mas o resultado final é apenas estéril – o máximo que as cenas da produção podem causar é algum sorrisinho amarelo constrangido. Os efeitos especiais toscos, o roteiro qualquer nota e a narrativa amadora formam um todo constrangedor que no final das contas até tornam “Helldriver” uma experiência cinematográfica a ser conferida simplesmente pelo fato de ver como as coisas podem dar tão errado. E mesmo a pretensão de entrar numa galeria de obras antológicas na categoria de podreira trash acaba afundando, pois não há nem sombra, por exemplo, daquela atmosfera de fuleiragem ingênua de um Ed Wood.domingo, 25 de dezembro de 2011
Rabies
Talvez boa parte do que pode motivar os cinéfilos em geral a assistir a “Rabies” (2011) seja a combinação do gênero com a nacionalidade: uma produção israelense de horror. Descontando o inusitado da origem, entretanto, o filme consegue reservar algumas surpresas. É provável que boa parte dos apreciadores do terror fiquem um tanto ressabiados pelo excesso de psicologização dos personagens e de subtramas de teor dramático, o que não parece condizer muitos às vezes com o estilo meio splater da obra (muita escatologia, sangue, vísceras e afins). Ainda sim, há um interessante equilíbrio entre os momentos de tensão com as sequências de violência explícita. Mesmo tendo por base uma trama centrada na figura de um psicopata sádico (recurso narrativo um tanto manjado), os diretores Aharon Keshales e Navot Papushado souberam criar algumas cenas efetivamente perturbadoras pela sua brutalidade e sordidez, principalmente quando surge a figura do policial corrupto e lascivo que sevicia duas jovens. No saldo geral, “Rabies” está longe de ser um marco ou obra-prima, mas se coloca acima da média do que vem sendo praticado ultimamente no gênero.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Warlock
É inegável que em certos aspectos “Warlock – O Demônio” (1989) envelheceu de forma esquisita como obra do gênero horror. Afinal, algumas sequências que deviam ser assustadoras e tensas acabam parecendo atualmente toscas pelas trucagens bagaceiras na comparação tecnológica com os efeitos especiais contemporâneos. É de se considerar, entretanto, que o filme ainda carrega um certo encanto atemporal pela sua estética, tanto pela ingenuidade das resoluções dramáticas quanto pela caracterização visual de algumas cenas (com um destaque especial para a bem elaborada reconstituição de época do século XVII das tomadas iniciais). A interpretação exagerada e cheia de fleuma de Julian Sands, no papel do personagem-título, também colabora para caracterizar “Warlock” como aquele tipo de produção que está longe de figurar como um clássico imprescindível, mas que ganha uma conotação cult dentro daquela linha de filmes que ficam num recanto obscuro no nosso imaginário cinematográfico.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Attack The Block
A década de 80 foi um período pródigo no gênero das aventuras juvenis. Diretores como Spielberg, Joe Dante e Richard Donner entregaram algumas de suas melhores obras em tal estilo cinematográfico. Curiosamente, 2011 foi um ano em que o gênero em questão e a estética dos cineastas mencionados receberam uma inesperada revitalização. Para começar, com o divertido “Super 8” e depois com o britânico “Attack The Block”. Neste último, entretanto, a recriação vai bem mais longe. O diretor Joe Cornish permeia sua obra com um humor crítico e cínico. Além disso, valoriza o estilo naquilo que ele tem de melhor: cenas de ação coreografadas com clareza e precisão, plenas de uma dimensão épica notável, com destaque para a seqüência final de combate entre o protagonista Moses (John Boyega) e as nojentas criaturas alienígenas, numa impressionante utilização do recurso da câmera lenta. O cineasta trabalha muito bem com uma atmosfera de ambiguidade, em que o tom de aventura escapista convive sem cerimônia com uma visão um tanto crua do cotidiano barra pesada e de classe média baixa dos conjuntos habitacionais londrinos, além do fato de que o estilo clássico de filmar de Cornish não prescinde de algumas modernidades expressivas (a excelente trilha sonora eletrônica é sintomático disso). Cornish tem ainda um faro notável para a direção dos atores – há, no mínimo, uma meia dúzia de caracterizações antológicas em seu elenco. E todas essas qualidades formam um todo poderoso que tornam “Attack The Block” a grande surpresa desta temporada cinematográfica.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Pov
Eu não disse que o negócio está disseminado? “Pov” é mais uma produção do gênero horror a utilizar o recurso da câmera subjetiva. O que a diferencia um pouco é que se trata de uma produção japonesa. Tal origem acaba até implicando numa abordagem diversa. Para começar, percebe-se um tom mais irônico na trama, enfocando algumas obsessões fetichistas tipicamente nipônicas (garotas colegiais bobinhas) e elementos em voga tanto nas sociedades ocidentais como nas orientais (programas televisivos de gosto duvidoso que oscilam entre o “informativo” e o reality show). Além disso, o filme traz bastante daquilo que se está acostumado a ver nas obras de horror recentes do cinema oriental: assombrações, relação entre o sobrenatural e a tecnologia moderna, ausência de finais felizes. Talvez aí esteja uma possível “originalidade” do filme: o encontro das tendências orientais e ocidentais do cinema de horror em uma mesma produção. “Pov” traz algumas soluções criativas em termos visuais e de roteiro, principalmente no seu terço final, em que há um jogo entre o “real” e aquilo que está registrado pela imagem televisiva. Outro ponto positivo é o fato dos personagens que manipulam a câmera serem supostamente profissionais faz com que o filme não tenha aquela impressão de estar tudo tremido ou fora de foco no momento de ação, permitindo, inclusive, que se observe boas trucagens.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Atividade Paranormal 3
Convenhamos que em boa parte destas produções de horror que utilizam o recurso da câmera subjetiva, em que a câmera é “operada” por um dos personagens, tal opção estética e narrativa se revela muito mais como uma desculpa para uma incompetência formal dos diretores. A câmera tremeu ou saiu de foco? Não há nenhuma grande cena em termos visuais? Ora, isso é coerente, afinal o personagem que “filmou” é amador, a intenção é que tudo pareça amador mesmo. Maldita “A Bruxa de Blair”... Ocasionalmente, entretanto, alguma obra a utilizar tal estilo de filmar consegue sair da mesmice e entregar um resultado que consegue cumprir com aquilo que é o mínimo em um filme do gênero terror: o de assustar e causar alguma tensão. “Atividade Paranormal 3” (2011) consegue entrar nesse pequeno e seleto clube. Entre os seus acertos, os diretores Henry Joost e Ariel Schulman encontram um bom pretexto para que a câmera tenha um procedimento mais regular e profissional durante o filme: o personagem que a opera trabalha no registro de festas de casamento. É claro que pode parecer um motivo meio cretino, mas para o filme funciona bem. O cara até se dá o direito a fazer experimentos artesanais para obter uma melhor panorâmica das imagens (afinal, o roteiro do filme se desenrola nos anos 80, época em que as tecnologias das filmadoras estavam bem abaixo das atuais). A trama desse novo capítulo da franquia também é bastante superior às partes anteriores – as cenas com trucagens e sustos são bem mais constantes, o que torna o filme visualmente mais rico, mas sem perder o senso de suspense (que também é maior agora). É claro que algumas ideias do roteiro não são exatamente novas, mas são clichês bem aproveitados. No cômputo geral, até deixa uma certa expectativa para o próximo filme da série (coisa que não ocorreu nas produções anteriores).
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Rock Brasília
Quem acompanhou o rock de Brasília quando o mesmo despontou na primeira metade da década de 80 sabe que as principais bandas de tal movimento não se destacaram especialmente pela técnica ou criatividade musical. O que houve naquele momento histórico foi uma conjunção de fatores específicos, indo desde a conjuntura econômico-social-política daquela época (os anos finais da ditadura e o começo da Nova República), passando pelo carisma e talento de Renato Russo e chegando na persistência e garra de alguns integrantes em particular. O grande acerto inicial do documentário “Rock Brasília – Era de Ouro” (2011) está em justamente não se concentrar nos méritos artísticos/musicais das bandas. O diretor Wladimir Carvalho busca um enfoque muito mais abrangente, sabendo evidenciar com precisão o contexto histórico de surgimento destes grupos, relacionando a vida de seus membros à própria evolução cultural da cidade (afinal, boa parte deles era filho de uma classe média alta que era base da vida econômica de Brasília – professores, burocratas, diplomatas). Os depoimentos colhidos são reveladores das variantes particulares que propiciaram a ascensão, apogeu e queda das bandas (e no caso do Capital Inicial, a volta improvável a um apogeu comercial ainda maior!). Carvalho mostra a veia apurada de documentarista ao saber extrair com sabedoria o essencial de cada entrevista, formatando de acordo com a sua proposta artística e conceitual. O fecho do filme é exemplar desta capacidade, em que as palavras e choro inesperados do pai dos irmãos Fê e Flávio Lemos do Capital Inicial sintetizam o espírito errático tanto do grupo em questão quanto do próprio movimento roqueiro oitentista brasiliense.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Um Gato em Paris
É interessante observar que a recente tendência dos últimos anos no cinema francês de revalorização do gênero policial se estendeu também para as animações. “Um Gato em Paris” (2010) é prova disso. Apesar de ter como protagonista um gato malandro e carismático, cuja dona é uma adorável garotinha, sua trama gira em torno de ladrões, assassinos, oficiais de polícia, trazendo até um clima de violência e sordidez. A crueza de tal roteiro, entretanto, acaba entrando em choque com o traço leve que predomina no filme, causando um contraste perturbador ao espectador. O filme evoca ainda uma certa atmosfera retrô, trazendo à mente algumas antigas e clássicas obras de Jean-Pierre Melville e Henri-Georges Clouzot. A trilha sonora, recheada de temas no estilo embalinho jazz, realça ainda mais a atmosfera atemporal do filme. No final das contas, “Um Gato em Paris” se configura muito mais como um vigoroso exercício estético do que propriamente entretenimento infantil.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
O Veneno Está na Mesa
A obra do documentarista Silvio Tendler sempre foi marcada pelo questionamento social e político, às vezes até beirando o panfletário. Na maioria das oportunidades, entretanto, o cineasta teve um elogiável cuidado formal com os seus filmes – o espectador podia não concordar com o teor ideológico do que estava sendo dito, mas reconhecia a dinâmica narrativa de Tendler, sua capacidade de criar tensão e prender a atenção de quem assiste às suas produções. Em “O Veneno Está na Mesa” (2011), essa combinação entre conteúdo e forma não fica bem equacionada. Por mais relevantes que sejam as denúncias levantadas no documentário, o excessivo tom jornalístico torna tudo arrastado e sonolento. O filme se concentra quase que apenas em depoimentos, com o diretor deixando de explorar alguns detalhes de ambientação que poderiam enriquecer a sua proposta (principalmente o aspecto de isolamento dos colonos que se recusam a usar agrotóxicos em sua lavoura – fica apenas levemente esboçado que tal atitude venha de uma possível condição cultural/étnica). É claro que “O Veneno Está na Mesa”, na sua essência, tenha mais preocupações educacionais e informativas do que um comprometimento com o lado “artístico”, mas talvez uma concepção cinematográfica menos dura tornasse a sua mensagem mais universal.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Entre Segredos e Mentiras
Em sua estreia em uma obra ficcional, o diretor Andrew Jarecki deixa claro sua origem documentarista. O seu estilo de filmar em “Entre Segredos e Mentiras” (2010) não traz nada de exageros visuais ou dramáticos e nem maiores arroubos formais. O cineasta prefere uma abordagem mais cerebral e discreta de um caso real que por si já seria escandaloso. Tal opção criativa acaba se revelando adequada ao evidenciar a gradual e verossímil degeneração moral e psíquica do protagonista David Marks (Ryan Gosling), ao mesmo tempo que a trajetória do personagem adquire um caráter simbólico de conto moral a retratar o vazio existencial e a hipocrisia comportamental da sociedade norte-americana na virada entre as décadas de 70 e 80. Por mais que as atitudes de David sejam odiosas e doentias, Jarecki consegue manter uma atmosfera de impessoalidade e destituída de maniqueísmos – a loucura do personagem parece adquirir uma certa coerência com o ambiente em que ele se situa. A estética que domina “Entre Segredos e Mentiras” também colabora para acentuar essa visão seca e objetiva de Jarecki, com uma fotografia de tons pálidos e narrativa que oscila com elegância entre o presente e o passado. De se destacar ainda a sólida composição interpretativa de Gosling no papel principal, marcando David com gestos sutis (mas reveladores) e um olhar assustador pela imprevisibilidade que esconde.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Eu Queria Ter a Sua Vida
Costumo dizer que os grandes problemas de um filme não residem em seus clichês temáticos, mas sim na sua abordagem formal. Ou seja, não importa muito a história como se conta, mas a forma com que tal história seja contada. Assim, “Eu Queria Ter a Sua Vida” (2011), mais uma comédia a ter como mote central do roteiro a troca de corpos entre os personagens principais, poderia merecer alguma chance, mesmo com a sua trama para lá de batida. A sua primeira meia hora até chega a ser promissora, principalmente por investir num humor escatológico maior que o habitual no gênero. Com o seu desenrolar, entretanto, a produção se afunda em convencionalismos excessivos, além de uma estrutura capenga de conto moral destituído de quaisquer ousadias. É como se a falta do que dizer em termos temáticos contaminasse a própria narrativa. O meu sentimento ao final da sensação foi o de não querer ver por um bom tempo alguma produção envolvendo a temática em questão...
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Os Três Mosqueteiros
O desastre artístico que representa esta mais recente versão cinematográfica de “Os Três Mosqueteiros” (2011) não tem relação com uma possível falta de fidelidade com o original literário. Afinal, se as mudanças viessem para tornar a obra mais funcional ou atualizada, não haveria grandes deméritos. O problema do filme é a sua equivocada concepção estética e narrativa – em boa parte da produção, temos a impressão de estarmos vendo um grande e genérico vídeo game (não à toa, o diretor Paul W. S. Anderson foi o responsável pela franquia para os cinemas da versão dos jogos “Resident Evil”). Tudo é basicamente agitado, espalhafatoso e barulhento, mas o efeito sobre nossa percepção sensorial é estéril. Algumas ideias envolvendo uma modernização tecnológica e uma abordagem mais cínica e violenta para situações e personagens são interessantes em termos teóricos, mas têm resultados práticos rasos e dramaticamente nulos. No final das contas, o que salva um pouco “Os Três Mosqueteiros” são algumas boas escolhas de elenco, mas que acabam se perdendo no oceano de incompetência que domina a obra.
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